- Quero que saiba: só tenho por você, o desprezo. Ainda assim, agradeço por comparecer.
- Igualmente. E, se me concede um comentário, me agrada muito ver que se tornou um ser assim tão afável.
- De fato, não lhe consenti nenhum comentário. Porém, isso não é importante. [...] Enfim, por que veio?
- Mas não seria esse o acertado? Pelo que me record...
- Sua presença me impõe uma clemência, coisa que desmereço.
- Pare de transformar de tal maneira o seu discurso! Permaneça me detestando: eu apesar de tudo, não lhe desculpei. Queria apenas vê-la mais uma vez.
- [...] Eu lhe vi em diferentes ocasiões logo que fui embora. Discreta que sou, fui até no seu matrimônio. Aliás, como Juliet permanecia linda naquele vestido! Fiquei alegre por ter se casado logo em seguida ao meu afastamento: garantia de que o mundo sempre gira da maneira como acreditamos e queremos que o faça. E filhos, tiveram?
- Nenhum. Animais de estimação contam?
- Sim.
- Também não.
- Que pena. Bem, eu tive um filho. Dei a ele o seu nome, Max. Contudo, o mais perfeito dos filhos são os netos. Minha neta, tão moça, tão admirável... Alegria transbordante! Recordo-me em tempos passados. Já a peguei roubando uns trocados de minha carteira, porém nada que doa. Sei de seus planos: fugirá com o adorável namorado no verão – está guardando dinheiro para a escapada.
- Espantosa a maneira como se assemelham tanto, apesar dos objetivos absolutamente opostos... Se eu soubesse que você iria partir, não teria apenas fugido com você no verão, é sim seqüestrado-a em plena primavera. [...] No dia em que foi embora, eu ia pedi-la em casamento.
- Minha resposta teria sido sim. Por isso parti.
- Não é nada fácil digerir isso, mesmo 52 anos depois.
- Acredite, é fácil, querido. Você resistiu e agora permanece aqui, recriando-me como entende que deva ser.
- Estou sonhando? Maldição! Tudo fruto da minha imaginação, apenas.
- Não, você está morrendo.
- Então deveria ter dito: Max, vim lhe buscar. Levar-te-ei ao céu, – ou ao inferno, como saberei? – já que não pude fazer isso em vida.
- Sublime e antiquado demais para meus costumes. Contenha-se.
- Eu estou sonhando.
- Você está sonhando. Você é um velho sonhador.
- Ou não. Por isso fostes; meu vazio era conflitante para você.
- [ . . . ] Perdoe-me. Por tudo.
- Nada tenho nada para perdoar. Minha memória é de todo ruim.
- Igualmente. Max, eu quase não me recordava da sua fisionomia; lembrava somente que detestava a maneira como você respirava, articulava e observava a todos. Aliás, ainda detesto.
- Eu também amo você, Lily.